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reflexo. refluxo.

“Have you forgotten your babies?
You really must remember not to leave them at the neighbors…”

- Eliza Doolittle, em ‘A Smokey Room’ -

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aqui pensando, as pessoas sempre se escolhem ou por química ou simplesmente circunstância. as razões para tanto parecem óbvias. e no meio disso tudo sempre tem aquelas que, com o tempo, precisam de alguém que fale por elas, que se expresse por elas, que chore por elas, que sorria por elas, etc. e tal como se tivessem desaprendido o linguajar do outro, como acaso fossem os sentimenos essa dança misógina de alguns avanços e muitos vãos recuos. movimento reflexo. refluxo. o outro que há em mim é você você e você, justificariam exaltando Leminski. mas, a vida é tão ruim assim pra deixar-se impressionar demais?! quando só se inspira em alguém também se está dissimulando algo de si: escondendo-se. mentir e ainda sentir-se surpreso?! mas só estou pensando... só pensando.

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o sempre avesso do outro.

o que me despertou foi o zurro de um jumento na praça do mercado. o jumento mexeu comigo e, não sei por que estranho motivo simpatizei com ele; e repentinamente tudo se tornou claro na minha cabeça.

- dostoiévski, em ‘O Idiota’ -

de dia, na companhia dos meus amigos, na sala de aula, na minha relação com minha família, nas festas, sou amável, dado demais, brincalhão, de uma gargalhada ímpar, sem preocupações e sempre tenho uma palavra amiga e acalentadora.

tudo a ponto de fazer com que as pessoas, de um modo geral, não me vejam como um rapaz perdido em cismas quando sozinho, tímido, inseguro, às avessas com a madrugada de muitos pensamentos, insone e pertubada.

e aí, frequentemente, tenho me perguntado que papel têm os rótulos nas nossas vidas. dizem que sou pra frente, sem vergonha na cara, esse ser todo desinibido. acredito?! não sei até que ponto.

ser absolutamente isso ou aquilo traz perigos muitos como, por exemplo, o fato de nos arraigarmos a urgência de corresponder a certos padrões de comportamentos que não desejamos necessariamente, mas que por eles optamos e nos orientamos justamente porque esperam que assim ajamos. e, talvez, por isso seja eu ou você um louco, ora um santo e o sempre avesso do outro, vagando periclitantemente entre a simpatia e a estranheza, a graça e a desgraça perante o olhar alheio.

no entanto, desempenhar papéis requer não só cuidado, mas coragem acima de tudo. é preciso desafiar as zonas de conforto. a ideia de perfeição que alimentam por nós mesmos e sobre nós mesmos é tão às vezes demasiado ruim que destruí-la, por ação ou omissão, seria concomitantemente não só nos atingir mas ao outro em escala não tão boa na mesma proporção. digitalizar0001

pois, uma vez movidos pela paixão, completamente cegos, estaremos propensos a justificar essa esperança justamente onde não há. e o resultado: a desilusão de descobrirmos nada do que achamos que erámos tão somente por um ataque de vaidade desesperada.

em um mundo que constantemente muda debaixo da gente, disseram-me certa feita que a única coisa da qual sabemos com certeza é o que expressa nossos sentimentos. razão porque devemos dar vazão ao amor que temos, ao medo do qual nos escondemos, à dor de que nos afastamos. as recompensas seriam paz na cabeça no coração.

mas, que paz é essa?! e se eu disser que não sou tão pleno quanto pareço?! o desejo cala, raramente ignoro a verdade, mas, de vez em quando, bate aquela vontade medonha de querer ser criança novamente. não aguento mais!

abraço!*

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fecha essas pernas, menino! (ou imposições do superego)

recebi poucos elogios tão assim de repente nessa caminhada aos trinta. e falo dos que me encucaram de alguma maneira ou outra. e, por isso mesmo, lembro de todos eles, inclusive o mais recente, o que me valeu a seguinte recordação:

“você não tem olhos bonitos, como os dele, mas tem outras partes as quais se pode admirar. por exemplo, seu pescoço. seu pescoço é muito bonito…"


quer dizer, né?! pescoços?! pareceu meio sincero. achei engraçado. mas, pescoçohonestidade é coisa escassa nesse mundo.

ou vai ver, fui eu quem deixou de acreditar em mim até. ou como nelson rodrigues diria 'só o rosto é indecente. do pescoço para baixo, podia-se andar nu' e, assim, muito do contrário, deixei-me iludir pelas taras convencionais do
alheio igualmente, crendo - e já descrendo – não ser o cheiro de quaisquer pescoços igual em Seu Mais Ninguém?!

e, às avessas com esse não desabrochar de prazer, já não me é exato, ora, em que tempo da história me perdi ou a que padrões castos de encontro a sexualidade meus punhos trêmulos foram atados e eu, fraco, já sem resistência, optado por ali mesmo ficar.

aliás, fica pra outro momento melhor abordar essa neura de aceitar ou censurar meu corpo e seus possíveis atributos (?!) ao encontro dos suntuosos deleites mundanos. se é que tem fim?! fim...

ahhh, mas, você deve ‘tá perguntando o que 'fechar as pernas' tem a ver com pescoços, num é?! talvez, quase nada. mas, é que, quando pirralho, sentado àquela cadeira de balanço, e eu não usava cueca, uma tia achou por certo me dar tamanha reprimenda.

abraço!*

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quantos mal me quer existem em única flor?!

pensar é uma desgraça na minha vida. entretanto, fico pensando o que seria de mim se eu não pensasse o tanto quanto penso. será que seria mais feliz, hein?! será que as pessoas pensam tanto quanto eu?! ou são tão corajosas que se atiram ante o desconhecido sem problematizarem os prós e as contras de suas escolhas?! ou o mundo é tão louco como eu, com a diferença que disfarça com certa destreza e despreocupação esse pensar, porque, vendo noutra pespectiva, pensar demais pode nos fazer parecer tão idiotas a ponto de ninguém mensurar, nem nós mesmos, a carga positiva ou negativa desse nosso imaginar?!
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pensar demasiado, além de me parecer essa desgraça toda, é de um caos tão grande que a força do momento é incapaz de me fazer vislumbrar o sentido, de imediato, da porrada de pensamentos desorganizados que vão se perfazendo a cada minutinho que são tanto mais infinitos quanto parecem ser os acasos, descasos e coincidências do meu dia-a-dia.
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daí porque sou louco varrido, apaixonado por livros, filmes, peças teatrais, músicas que tenham um eu centrado, organizado em suas ideias. minto. é mais inveja de minha parte: tenho inveja dos que sabem organizar suas ideias da mesma maneira como é narrada nos livros, filmes, peças teatrais, músicas que tenham um eu centrado. não é amor. não esse sentimento tão belo quanto dizem sê-lo. ou o amor não é isso ou eu não sei amar. ou o prazer é bem diferente da felicidade.
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não bastasse isso, com os meus pensamentos, vêm as ideias em relação ao outro, essa loucura que é nossa passagem por aqui, enfim, de estar sempre se jogando para o desconhecido e ainda assim continuar tentando e tentando e tentando ainda que do lado oposto não exista ninguém que não seja mera projeção de nós mesmos, seres falhos em potencial, pois estaremos sempre atravessados por esse externo.
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e sobre o amor, a beleza dói muito. dói porque é perigosa, é violenta, meus olhos ardem e se enchem de lágrimas. aí pergunto: é normal ser feliz e chorar mais que rir?! viver nessa corda bamba entre o desespero e o tédio?! nessa linha tênue entre a revolta e a humilhação?! é normal chorar sangue ou tinta vermelha?! é normal?!

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tenho medo desse tipo de pensamentos, sabe?! às vezes acho que estou ficando doido, uma vez não ver o mundo com os olhares pacientes e calmos de muita gente por aí. e, mesmo crendo eu caminhar de alguma forma, a sensação é de estar parado ou de remar em círculos motivado pelas expectativas alheias, como se minha vida tivesse se resumido a só questionar ou, infelizmente, seguir uma série de regras que não são nem minhas posto o pensar também ser uma regra, um verbo chato que me aflige pra não passar a impressão de ignorante ante gente que nem dou valor ou gosto devidamente, já que vaidade também é norma das mais anacrônicas.
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e, assim, uma aflição maior: quem sabe, por pensar demais, não me estou, crendo fazer um bem, alimentando um mal maior?! e se esses pensamentos não valerem de nada e, na pior das hipóteses, eu acabar num manicômio, abandonado, sozinho, como é o destino de muitos que se prestam a esse ato de coragem ou falta dela, sei lá?!
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afinal, do que preciso me libertar?! e nesse pensar desgraçado, desorganizado, dolorido, humilhante, entediante, verbo chato, o cerne da questão nem sempre é quem eu sou ou o que tenho me tornado ao longo desses vinte e poucos anos. responder isso me parece mais fácil do que aparenta complicado. a questão é mais dramática: que escolhas tenho feito?! pensando, pergunto-me indiretamente qual o preço delas e cada escolha tem lá seu valor, como, por vezes, achar, por conta própria, que o nada é tão nada quanto o tudo é nada ou compartilhar da opinião de um amigo distante que diz 'ser sangra'.
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e, assim como ele, tenho sangrado, buscado respostas para muitos de meus questionamentos interiores, velozes, vis e vãos até. se isso é bom, agora, agora mesmo, nem sei. esses sentimentos que a mente da gente alimenta de não estar por dentro das coisas, de não acompanhar o ritmo ou dimensão que tomam, eles nunca vão embora, não sorrateiramente como a gente enseja. pelo menos, é essa a impressão que tenho nesse exato instante.
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ser adulto, talvez, seja saber quem você é e ter a coragem de ser essa pessoa sem se preocupar. mas, sou adulto?! escutei dia desses, "se há loucura suficiente para rir ou chorar, talvez exista lucidez demais em muitos casos..." - vai saber, né?!
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abraço!